Maturidade
*
por
Liane Alves
Alguém
aí já comeu manga madura, daquelas bem suculentas, e provou seu
suco doce, que escorre pela boca e mancha toda a roupa? Então,
ali, sentindo o gosto da fruta, a gente tem certeza de que ela
está no seu auge, no máximo de tudo que é e pode oferecer. A sua
“madurez” é desejada, querida. Ninguém vai ter essa sensação quase
erótica ao morder uma manga verde e dura. Então por que será que
a gente não consegue transpor esse exemplo para nossa própria
vida? Por que a maturidade, ou o envelhecer, nos apavora tanto?
E por que não tiramos do outono o mesmo prazer que se extrai do
verão e da primavera?
A
juventude e o que é rígido, novo, verde tornou-se nosso supremo
ideal. E o processo biológico em direção ao envelhecimento é empurrado
cada vez mais para a frente. O desejável, para a maioria de nós,
seria usufruir uma juventude interminável, quase eterna, para
então (se realmente insistirem muito nisso) morrer de repente,
dormindo. O processo que, de acordo com a natureza, nos deixaria
mais doces e tenros, mais plenos e ricos, desabrochando para o
que realmente somos, é visto como um castigo contra o qual se
deve lutar a todo custo. Mas não precisa ser assim. Existem outras
maneiras de ter prazer na vida, exatamente como ela se apresenta.
Saber como fazer isso é o grande segredo.
Jovens
maduros
Quando
se fala de envelhecer, de chegar à maturidade e continuar a aproveitar
tudo a que temos direito, nossos irmãozinhos chineses têm muito
a dizer. “Na China, quem está na faixa dos 50 anos, por exemplo,
é considerado um ‘jovem maduro’. Para a cultura tradicional chinesa,
um homem ou uma mulher nessa idade está no auge de tudo o que
ele é”, afi rma Roque Enrique Severino, professor de tai chi há
35 anos e presidente da Sociedade Brasileira de Cultura Oriental.
De acordo com esse pensamento, o processo do envelhecimento mais
radical só se implantaria bem depois dos 60, mas esse limite também
pode variar. “Mesmo quando a pessoa chega aos 80 anos, e, portanto,
à velhice, na China se diz que ela está na idade ideal para começar
a apreciar verdadeiramente a vida”, diz Roque.
Serão
os chineses uns otimistas desenfreados? Uns malucos fora da realidade?
Provavelmente não. A empolgação excessiva nunca foi uma característica
do povo chinês. Mas, para entender essas afirmações sem considerá-las
um exagero, deve-se entender o ponto de vista a partir do qual
elas são feitas.
Os
chineses conectados com a medicina tradicional do seu país conhecem
a energia vital que percorre o corpo como os marinheiros conhecem
as ondas do mar. Sabem de seus altos e baixos, fluxos e refluxos,
excessos e faltas, inclusive considerando os parâmetros ideais
para cada fase da vida. Entendem que todo o longo processo da
maturidade, que para eles leva de 30 a 40 anos, pode ser vivido
com vigor e energia. E para que a vitalidade flua pelo corpo da
maneira mais harmônica possível, dispõem de um arsenal de terapias,
técnicas, exercícios, massagens, dietas, tratamentos e também
meditações, pois mente, espírito e corpo são uma coisa só, garantem
eles. Muito sábio. Com a vitalidade em alta, o amadurecer se faz
lentamente, sem doenças e limites físicos restritos. Por isso,
os chineses a conservam o maior tempo possível, até em idades
bem avançadas. Ser um jovem maduro aos 50 anos, ou bem mais, significa
que a energia vital ainda corre pelos meridianos com o vigor da
juventude num organismo que começa a amadurecer e a declinar.
Deixar a mente límpida e o corpo envelhecer sem que ele perca
o viço, a seiva e a flexibilidade é o ideal chinês.
Arte
da compensação
Estar
bem dentro do corpo e cuidar da serenidade da mente é um aprendizado
que exige sensibilidade, percepção e dedicação. Isto é, o que
antes, durante a juventude, vinha de graça e sem esforço, agora
deve ser batalhado. “A realidade irreversível é que estamos vivendo
por mais tempo e o modo como enfrentamos essa maior longevidade
faz uma diferença monumental para todos nós”, diz Jean Carper,
autor de Pare de Envelhecer Agora. “E, quando agimos para retardar
nosso próprio envelhecimento, participamos de uma maravilhosa
revolução na medicina que enfatiza a prevenção em vez do tratamento”,
afirma ele. Pois envelhecer bem é a arte da compensação: o que
se perde é reposto conscientemente, seja com tai chi, seja com
meditação, ioga ou uma moderna dieta que impede a formação de
radicais livres com alimentos e vitaminas. A boa informação e
a prática constante são essenciais para quem quer amadurecer de
maneira saudável.
Os
resultados desses métodos, terapias e técnicas podem se tornar
visíveis em pouco tempo. “Um dos indicadores mais fáceis para
avaliar a vitalidade de alguém é o brilho dos olhos”, diz o professor
Roque Severino. Se você tiver 50, 60 ou 70 anos e tiver essa luz
interna, essa faísca que demonstra o vigor do espírito, é sinal
de que o inverno da velhice ainda não se manifestou e que ainda
pode estar bem longe, pelo menos segundo a avaliação chinesa.
“Podemos ver uma pessoa idosa recuperar instantaneamente essa
centelha por alguns momentos ao falar de um acontecimento do passado
que tenha despertado seu entusiasmo e alegria. É como se essa
luz estivesse sempre ali, mas não fosse mais acessada”, diz a
terapeuta Maria Luiza de Aquino, que ensina ioga tibetana para
a recuperação da vitalidade perdida. “O mais desejável é que esse
brilho e o amor pela vida nasçam novamente com base no momento
presente, e que não fiquem perdidos só nas lembranças do que passou”,
diz ela. Como? É o que a gente vai ver logo a seguir.
A
volta do encantamento
Leia
com atenção as próximas frases: “A vida é boa acima de tudo; é
boa por si mesma; o raciocínio nada conta para isso. Não se é
feliz por viagem, riqueza, sucesso, prazer. É-se feliz porque
se é feliz. Como o morango tem gosto de morango, assim a vida
tem gosto de felicidade. O sol é bom, a chuva é boa; todo ruído
é música. Ver, ouvir, cheirar, saborear, tocar não é mais do que
uma sucessão de felicidades”. Antes que você ache que o pensador
Alain, pseudônimo do francês Émile-Auguste Chartier (1868-1951),
seja outro otimista desenfreado, vamos seguir mais profundamente
seu pensamento. “Mesmo as dores, o cansaço, tudo isso tem um sabor
de vida. Existir é bom, não melhor do que outra coisa, pois existir
é tudo, e não existir é nada.” Bem, talvez seja essa a grande
chave do mais completo e apaixonado amor pela existência: amase
tudo nela, da tristeza à angústia, da manhã radiosa ao começo
de uma paixão, da lágrima e do peito doído à arte. É uma aceitação
incondicional.
O
mitólogo Joseph Campbell acrescentaria: “Diga ‘sim!’ à totalidade
da vida, tanto ao prazer quanto à dor. Mergulhe com alegria nos
sofrimentos do mundo. O imenso privilégio da existência é ser
exatamente quem você é”. A mudança extraordinária que pode acontecer
internamente com base nessa diferente forma de apreciação pela
existência em si pode trazer de volta um encantamento que talvez
tenha se perdido. “Felicidade ou amargor? Será preciso sempre
escolher? Pode-se fazê-lo? Parece-me que, antes, cumpre aprender
a amar os dois”, escreveu o filósofo francês André Comte-Sponville
no livro Bom Dia, Angústia. “A dor e a angústia fazem parte do
real (...). A sabedoria está na aceitação do real, não na sua
negação. O que de mais natural, quando se sente dor, do que gritar?
O que mais sábio, quando se está angustiado, do que aceitá-lo?
‘Enquanto fazes uma diferença entre o samsara e o nirvana, estás
no samsara’, dizia Nargarjuna. Enquanto você faz uma diferença
entre sua pobre vida e a redenção, está na sua pobre vida”, continua
Sponville.
E
há outra questão: sempre sabemos que vamos morrer. Com essa consciência
nítida, torna-se natural reconhecer a preciosidade de cada instante.
Mesmo o prazer é ressaltado por sua fugacidade, por sua raridade
e lampejo. Também a dor, a angústia ou a tristeza trazem em si
sua nobre singularidade. Difícil? Talvez esse seja mais um dos
presentes da maturidade: é possível experimentar sempre, principalmente
o que não se vivenciou antes, o que se deixou para trás, o que
nunca passou pela cabeça. O que realmente temos a perder, afinal?
Jair
Engracia, 64 anos, funcionário do Banco do Brasil, experimentou
esse amor pela singularidade da vida de uma forma muito especial.
“A maior dor do envelhecimento é vermos que temos menos possibilidades.
A quantidade, em tudo e por tudo, diminui. E isso dói”, diz ele.
Mesmo assim, é possível saborear essa dor. Ela indica que a direção
da vida, nesse momento, se dirige à qualidade, à contemplação
e à fruição da existência, mais do que à quantidade, ao fazer
e ao ter. E, quando se percebe isso, o sofrimento é mais fácil
de ser integrado e até saboreado. O envelhecer nos segreda a cada
momento que sempre podemos ter a possibilidade de viver novas
experiências, para render homenagem à própria vida. Há melhor
epitáfi o que o título da biografia de Pablo Neruda? Ele resumiu
toda sua história numa única e invejável frase: Confesso que Vivi.
Liberdade,
enfim
Outro
elemento que pode ajudar bastante nessa nova fruição é a libertação
dos padrões culturais impostos pela sociedade, o famoso “tem que”.
A empresária Maria Clara Gomide, por exemplo, refletiu bastante
sobre seu próprio comportamento amoroso e resolveu mudar da água
para o vinho. “Aos 54 anos ainda queria casar, ter um companheiro
fixo, uma vidinha pacata, exatamente como queria aos 22. Na verdade,
vi que essa não parecia uma idéia minha, mas da sociedade: era
o que se esperava de mim quando era mais jovem.” E acrescenta,
sorrindo: “Me esqueci de atualizar meus sonhos”. Hoje ela reconhece
que teria horror de viver essa realidade doméstica. “Mudei completamente
minha perspectiva. Tenho dois namorados, um francês e um espanhol,
que visito durante o ano em semestres diferentes, que possivelmente
são tão fiéis a mim quanto eu a eles”, diz. “Mas fico feliz na
companhia deles, cada um me traz uma experiência diferente, e
é isso, honestamente, que eu quero neste momento da minha existência.”
Ah,
a liberdade da maturidade. Que ganho maravilhoso, essa aceitação
e esse conhecimento de si mesmo, para o bem ou para o mal. “As
pessoas fracionam a vida quando rejeitam a si mesmas, negam a
própria história quando valorizam o modelo social, seja estético,
seja comportamental, sem questionálo”, diz Pedro Paulo Monteiro,
professor de Gerontologia da PUC de Petrópolis e autor do livro
Envelhecer: Histórias, Encontros e Transformações. “A sabedoria
só é possível pela reflexão. Porém, a reflexão envolve uma postura
de humildade, de aprendizado sobre si com base nas experiências
de vida”, diz ele.
Envelhecer
hoje
Essa
procura pelo significado e pelo encantamento da vida pode ocorrer
de várias maneiras. De uma forma menos filosófi ca, é o que se
tenta todos os dias no Hospital das Clínicas de São Paulo, onde
funciona o Programa de Envelhecimento Saudável, comandado pelo
médico geriatra Wilson Jacob. Ali, além do atendimento físico
e psicológico para quem tem mais de 60 anos, ensinase, com a ajuda
de profissionais voluntários, ioga, meditação, dança, ikebana
e outras atividades. Dessa maneira, procura-se despertar nessas
pessoas novamente a alegria de viver. E descobrem-se coisas surpreendentes,
como o aumento da capacidade de memória dos idosos após seis meses
de tai chi, uma das conclusões de um estudo da médica Juliana
Yumi Kafai, com a participação de Ângela Soci, professora dessa
arte marcial.
Inclusive
já há uma corrente nos Estados Unidos que afirma que uma pessoa
de 60 anos, com boa saúde e utilizando os recursos de hoje para
manter sua energia, é equivalente a uma pessoa de 40 anos há um
século. Sim, os 60 são os novos 40, como se diz por aí. Portanto,
não só a vida esticou como ela tem outra qualidade. Há que se
considerar também que atualmente as pessoas vivem o envelhecer
de outra maneira. Regina Casé, num quadro do Fantástico, revelou
essa diferença ao mostrar o quadro clássico de dom Pedro II, com
os trajes imperiais e sua longa barba branca. Ela pediu que as
pessoas adivinhassem sua idade 70, 80 ou 90 , para depois contar
a idade real do imperador na época: 50 anos.
Pois
é, hoje é mais fácil ver as pessoas assumirem a própria idade.
A advogada Alice Maria Felipetto, por exemplo, decidiu assumir
o cabelo grisalho aos 46 anos. “Só eu e minhas amigas achamos
lindo. Os homens sumiram”, afirma. Como ainda pretende namorar
muito, fez uma concessão consciente ao sexo masculino e voltou
a tingir o cabelo. Já a tradutora Helena Hungria continuou com
sua opção, contentíssima e aplaudida pelos amigos, que a acham
mais bonita agora que antes. “Meu sonho era envelhecer como a
Rita Lee, ter o cabelo exatamente naquele tom de vermelho. Mas
fui mudando, mudando e aos 54 anos e meio decidi assumir os grisalhos.
Hoje tenho exatamente o rosto que queria ter.” Quem quiser gostar
dela assim, que goste.
Aurora
do espírito
Os
anos de maturidade convidam a uma reorientação espiritual fundamental.
“O propósito da crise na transição da meia-idade (que acontece
por volta dos 35, 40 anos) é efetuar essa reorientação e conversão”,
escreveram as psicanalistas junguianas Anne Brennan e Janice Brewi
no livro Arquétipos Junguianos, a Espiritualidade na Meia-idade.
Isso
porque a primeira metade da vida é bastante diferente da segunda.
Até a meia-idade ela é orientada pelos desejos do ego e da própria
espécie humana: produzir, reproduzir, vencer. Depois isso diminui.
Ao redor dos 50, há um desejo profundo de mudar a vida que se
levou até então, ou até transformar a maneira de ser: o indivíduo
passa a responder mais às leis do espírito. “Somos chamados para
um modo de ser totalmente novo. Na primeira metade da vida, é
o mundo exterior que nos chama. Na meia-idade, o mundo interior”,
dizem elas. Os chamados externos, como a carreira, a manutenção
de status, relacionamentos e até a família, mudam de prioridade.
Esse é o retrato de uma existência plena, quando a maturidade
se completa com fecho de ouro. Por isso, acredite, o envelhecer
só pode ser desejado com alegria. Pense nisso. E que a vida lhe
seja doce.
7
DICAS PARA UMA MATURIDADE FELIZ
1.
cuide do corpo - Pratique exercícios, alimentese com equilíbrio,
consulte o médico regularmente.
2.
mantenha-se ativo - Não se entregue: saia por aí, ingresse em
uma ONG, em um grupo de pessoas com as mesmas afinidades que as
suas.
3.
alimente as relações sociais - Cultive seus amigos, crie ocasiões
gostosas para reunir-se com eles.
4.
cuide do seu parceiro - Nessa etapa da vida, nada mais importante
que cuidar de sua relação a dois.
5.
explore novos interesses - Redescubra o pintor dentro de você,
aprenda um novo idioma etc.
6.
abra-se ao mundo - Viaje sempre que possível novos horizontes
costumam nos rejuvenescer.
7.
aceite novos desafios - Não encare a vida com aquele ar de “já
vi tudo isso antes”.
*
Artigo
publicado originalmente na Revista Vida Simples.
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