Terapia
em foco *
por
Roberta de Lucca
Uma
gota a mais e o copo transborda. A metáfora sobre algo que não
conseguimos conter desenha a imagem do que acontece nos momentos
em que não damos conta de resolver sozinhos um problema que incomoda
bem lá dentro da gente. Ao atingirmos essa situação-limite, a
água escorre e nos vemos no impasse de matar, morrer ou de nos
fingirmos de mortos. Matar é buscar soluções. Morrer é se deixar
aniquilar por ela. Fingir de morto é olhar para o lado, agindo
como se a coisa não fosse com você. Eis aí três possibilidades
do que cada um de nós, como indivíduos (na mais pura acepção da
palavra, “aquilo que não se divide”), podemos fazer com nossas
vidas quando algo não vai bem em nosso íntimo. Tudo é questão
de escolha, e essa opção determina como viveremos e quem seremos
para nós e para os outros.
Dentro
dessas possibilidades, vamos falar da parcela que encara sua verve
Bruce Willys em Duro de Matar e parte para o combate. Calma, ninguém
vai sair por aí batendo nas pessoas que nos causam problemas,
nos decepcionam ou representam o que gostaríamos de ser e não
somos. Ir à luta tem um sentido mais pessoal, de mergulhar em
uma jornada que nos colocará em confronto com nosso maior desafiante:
nós mesmos.
Na
batalha, é importante contar com a expertise de um bom navegador
que ajude a interpretar as coordenadas do trajeto até o entendimento
de por que o copo transbordou. Esse companheiro de jornada estudou
o funcionamento da mente humana e seus meandros, e, quem sabe,
nos fará chegar ao registro da torneira para evitar um novo transbordo.
Assim define-se o terapeuta, palavra que nomeia psicanalistas,
psiquiatras, psicoterapeutas e outros profissionais que trabalham
com técnicas de autoconhecimento (vale explicar que os termos
“terapia” e “terapeuta” usados nesta reportagem referem-se a profissionais
com formação acadêmica e cursos de especialização em estudos da
mente). É com eles que contamos quando não conseguimos evitar
que a gota letal cause sofrimento emocional. Ao pedir socorro
e nos lançarmos ao desafio de fazer terapia, embarcamos numa viagem
ao inconsciente aquele local dentro de nós que guarda o que somos,
como nos tornamos o que somos, o que queremos ser e o que podemos
ser.
O
começo: Freud
Existe
ainda muita gente que vê a psicoterapia como tratamento para malucos
ou para pessoas sem capacidade de lidar com seus próprios problemas.
O ranço é antigo, do tempo em que a subjetividade era malvista
pela ciência. Remanescentes desse pensamento acreditam que um
antidepressivo como Prozac na mão vale mais que boas palavras.
Mas quem aposta na fala como instrumento de expressão sabe que
entrar num consultório e se entregar a um momento “esta é sua
vida” com um desconhecido é uma forte ferramenta para tirar o
pedregulho do sapato. “A verbalização para descrever fatos e estados
emocionais ajuda a processá-los e a torná-los palatáveis”, afirma
o psiquiatra e psicanalista Plínio Montagna. Ao contar o que sente,
a pessoa se ouve e amplia a consciência de si própria.
Graças
ao médico austríaco Sigmund Freud, que formulou os princípios
da psicanálise na década de 1890, hoje sabemos que é possível
entender a mente humana e mudar aspectos de nossa conduta que
incomodam tanto no relacionamento com os outros quanto conosco
mesmos. A partir da “descoberta” do inconsciente, Freud revelou
ao mundo que muitos transtornos mentais não são mero resultado
de doenças. Conteúdos guardados em nosso interior, oriundos de
sentimentos inconscientes reprimidos na infância por nossos pais,
moldam a figura que somos hoje.
É
bom para quem?
Tal
entendimento garantiu conhecimento não só para o tratamento de
doenças psíquicas resultantes de distúrbios do inconsciente, como
também para que uma pessoa como eu ou você possa se conhecer melhor
e entender por que o calo dói quando pisamos (ou somos pisados)
de determinada maneira. O costume é alguém buscar ajuda porque
se sente incapaz de resolver seus incômodos e, em raros casos,
para se conhecer melhor. Mesmo na primeira situação, é quase inevitável
não continuar a terapia, pois conforme se enxerga com mais clareza,
mais o paciente quer se aperfeiçoar é como polir uma escultura
para que ela fique cada vez mais bela.
No
campo das doenças mentais, a psicanálise contribui para humanizar
bastante o tratamento. Hoje, uma pessoa esquizofrênica toma medicamentos
prescritos por um médico psiquiatra e tem apoio psicoterapêutico.
Transtornos alimentares, bipolares, déficit de atenção e depressão,
entre outros, precisam do critério médico para concluir o diagnóstico.
“Às vezes, o limite da avaliação de uma depressão para um transtorno
bipolar é tão tênue que só a experiência médica pode detectar
a doença”, diz o psiquiatra Frederico Navas Demétrio, coordenador
do Grupo de Estudos de Doenças Afetivas do Hospital das Clínicas
de São Paulo.
O
olhar afinado também sinaliza quando tudo pode ser resolvido só
com psicoterapia. Muitas vezes, a conversa é mais eficaz que o
Prozac. Antidepressivo lançado com estardalhaço em 1986, a tal
pílula da felicidade aumenta a serotonina do cérebro, deixando
as pessoas mais alegres. Fácil de administrar, até um ginecologista
pode receitá-la para aliviar sintomas de distúrbios hormonais.
O problema é o mau uso e a auto-enganação (o famoso efeito placebo).
“O efeito pode ser efêmero: quando tomo, sorrio, quando o efeito
passa, entristeço”, afirma a psicoterapeuta e professora do Instituto
Sedes Sapientiae Maria Helena Mandacarú Guerra.
Existe
melhor técnica?
Depois
de Freud, um mundo de vastas possibilidades se abriu além da fronteira
da doença e hoje existe terapia para todo tipo de paciente. Parece
meio amplo? E é. “Se considerarmos todos os tratamentos do campo
do autoconhecimento, indo do xamanismo à psicanálise, existem
mais de 500 modalidades. Mas a maioria não tem embasamento mais
científico, no sentido do entendimento da mente humana”, afirma
o médico psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia,
José Toufic Thomé. Levando em conta esse critério, a psicanálise
e a psicoterapia praticadas por psicanalistas, psiquiatras ou
psicólogos têm melhor embasamento para a análise humana.
Geralmente,
a pessoa chega a um terapeuta por indicação de um amigo ou parente.
Ela não está interessada na técnica, só precisa de alguém que
a ajude a entender o que está acontecendo e para isso não há idade;
a necessidade pode surgir em qualquer época da vida. “Existem
bons profissionais em todas as linhas. Não há uma escola terapêutica
de amplitude absoluta. O importante é a empatia paciente-psicoterapeuta
e que o profissional tenha boas referências, seja membro de uma
associação ou sociedade de classe reconhecida”, diz Maria Helena
Guerra. Outro componente decisivo apontado por muitos entrevistados
desta reportagem é que o bom psicoterapeuta nunca diz o que o
paciente deve fazer. “Ele auxilia a pessoa a navegar em suas emoções
e a se compreender”, diz a psicoterapeuta Adriana Dorgan.
A
confiança essencial
Uma
boa indicação, portanto, é o começo do caminho para se chegar
a alguém que tenha tato e técnica para orientar a navegação por
águas ora turbulentas, ora cristalinas do inconsciente esse “mar”
que guarda a chave dos nossos mistérios, desde os aceitáveis até
os inimagináveis. “Fazer terapia é um ato de coragem, porque as
descobertas podem ser viscerais”, afirma o médico psiquiatra e
psicanalista Durval Mazzei Nogueira Filho. Chegar a esse patamar
de escarafunchar a ferida com bisturi depende de o paciente querer
ir mais além da resolução do problema imediato.
Também
é importante estar bem acompanhado. “O paciente tem que sentir
que o terapeuta está com ele”, diz Adriana Dorgan. Quando isso
não acontece, é como um carro patinando na lama. “Durante anos
fiz terapia com a mesma psicóloga, mas quando ela começou a dizer
que minhas dúvidas com relação à minha sexualidade eram viagem
da minha cabeça, parei a análise. Procurei outro terapeuta e conquistei
autonomia para assumir minha homossexualidade”, diz Felipe (o
nome foi trocado a pedido do entrevistado).
Fala
que eu te escuto
Nem
todo mundo se dispõe a conversar com o psicanalista três ou quatro
vezes na mesma semana, deitar no divã e falar o que lhe vier à
mente assim, de chofre. Esse é o molde clássico da sessão de psicanálise
elaborado por Freud, que resiste ao tempo e ao bolso de alguns
clientes.
O
ambiente costuma ser básico: a poltrona do analista e o divã.
Nesse cenário quase asséptico, o paciente fala sobre aquilo que
pensa, seus incômodos, suas angústias. “Nos encontros com o profissional,
a idéia é reestruturar e reinterpretar, à luz do que está acontecendo,
as distorções do passado que estão presentes no dia-a-dia”, diz
a psicanalista Anna Verônica Mautner.
A
ausência de contato visual no processo de livre associação, como
é chamada a técnica de deitar e falar, é fundamental para o sucesso
da jornada. “Um não controla a reação do outro com o olhar, permitindo
ao paciente abandonar a vigilância consciente e se entregar à
expressão verbal”, afirma a psicanalista Celina Giacomelli. Assim
aflora o sintoma daquilo que faz mal. O passo seguinte é compreender
o que mantém esse sintoma.
Às
vezes, esse processo de deixar fluir o verbo ganha um componente
extra, de certo modo emocionante, quando o terapeuta segue a linha
criada por Jacques Lacan nos anos de 1930. O psicanalista francês
concebeu o tempo lógico, colocando abaixo a regra freudiana de
que a sessão teria 50 minutos. O analista literalmente corta o
papo na hora em que achar pertinente. “As pessoas falam muito,
e a fala pode vir disfarçada. O psicanalista interrompe o paciente
para que ele se ouça e entenda que precisa deixar de usar álibis”,
diz Durval Filho. Depois do corte abrupto, o analisado engole
seco e vai embora com suas últimas palavras latejando na cabeça
no estilo “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.
Proximidade
Olhos
nos olhos, poltronas frente a frente e mesinha auxiliar com uma
caixa de lenços de papel. O cenário, parecido com uma sala de
visitas, é o mais comum nos consultórios. Nesse ambiente de proximidade,
o paciente dialoga com o terapeuta. Na conversa com um adepto
das teorias do suíço Carl Gustav Jung, ex-discípulo de Freud que,
em 1913, cunhou o termo “psicoterapia analítica” para determinar
seu método de trabalho, a análise leva em conta não apenas as
questões internas e individuais do paciente, mas também fatores
externos, disseminados pelo consciente e pelo inconsciente coletivo
da humanidade.
Características
familiares e contexto social e cultural ativam elementos do inconsciente,
contribuindo para moldar quem somos. Por isso Jung acreditava
que não basta entender o problema. A compreensão é racional, e
as pessoas têm que entrar na emoção contida naquela vivência.
Ao viver a descoberta, a pessoa libera a sensação que estava presa.
“O paciente tem a possibilidade de se transformar pela consciência
de seus complexos e da iluminação dos seus bloqueios e fraquezas”,
afirma o psiquiatra e psicoterapeuta Eliseu Labigalini Junior.
Corpo
e mente
Se
a mente fala, o corpo faz igual e antes mesmo da fala. O bebê
se expressa com gestos, olhares, caretas e sorrisos. Ao crescer,
essa espontaneidade fica mais contida, mas o vocabulário corporal
permanece latente aos olhos de quem sabe ver. Respiração acelerada
ou curta, suores, ombros para frente, a maneira de cruzar braços
ou pernas, tudo isso e muito mais denunciam aspectos internos
do que passamos, estamos passando ou nos tornamos. A partir da
observação desses sinais, o psicólogo austríaco Wilhelm Reich
elaborou um trabalho na década de 1920 que culminou no surgimento
da terapia corporal.
Implacável,
o terapeuta analisa tudo o que se passa com o paciente. “Antes
de verbalizar, as pessoas sentem. Por isso é importante observar
e traduzir essas sensações”, diz o terapeuta corporal Rubens Kignel,
que dá cursos de especialização no Brasil, Itália, França e Japão.
Durante a conversa, tudo pode acontecer de um convite para o paciente
deitar num divã king size e levantar as pernas para o alto até
pular em uma cama elástica.
O
dinamismo também tem lugar no psicodrama, outra técnica que faz
a pessoa resgatar o momento que incomodou como se estivesse encenando
uma peça de teatro. “Ele revive o que aconteceu e também se coloca
no lugar do outro. A inversão de papéis faz com que a pessoa aprenda
a responder de maneira inovadora a situações que já viveu”, afirma
a diretora do Instituto Psico-Social e Educacional da Associação
Brasileira de Psicodrama, Maria Aparecida Fernandes Martin.
O
casal, a família
Como
a maioria de nós não vive em uma caverna, longe de tudo e de todos,
nossas ações refletem na vida dos outros e vice-versa principalmente
no universo familiar, onde estabelecemos ligações mais intensas.
Não há como negar que o sucesso de qualquer relação interpessoal
depende do esforço de ambos, especialmente quando o assunto é
casamento. Aqui a seara às vezes é tão complicada que só recorrendo
à bóia para se safar do afogamento. Daí o surgimento da terapia
de casais, geralmente procurada quando a dupla chega ao clímax
da crise.
Na
análise, o que entra em cena é o “nós”. Marido ou mulher podem
buscar ajuda individual, mas, quando estão juntos na sala do psicoterapeuta,
o que se discute é a terceira pessoa da relação. “O terapeuta
não é conselheiro matrimonial, e sim um intérprete das falas.
Ele ajuda o casal a aprender a conversar e a se ver”, diz Louise
Madeira, especialista em família.
Por
outro lado, uma crise abafada pode desencadear problemas nos filhos,
que começam a apresentar mau rendimento escolar ou dificuldade
de relacionamento. Foi assim que a secretária executiva Valentina
Ceresatto foi aconselhada pela terapeuta de sua filha a procurar
ajuda após a morte do marido. Valentina não queria que a menina
a visse triste e ativou seu lado de mulher forte. Mas a adolescente
pensou que a mãe não estava ligando para o que aconteceu, e começou
a ter um comportamento estranho. “Eu a levei para a terapia e
logo a psicóloga percebeu que era eu quem precisava cuidar do
meu sofrimento”, diz.
Terapia
breve
Sofrimento
é o que desencadeia o processo da gota d’água, pegando as pessoas
no contrapé e até em situações inusitadas. Imagine que uma promoção
pode gerar tamanha insegurança no felizardo que ele precisa de
auxílio para superar o choque e tocar a vida. A perda do emprego
ou a notícia de uma doença grave também ativam o gatilho do transbordo.
Para casos decorrentes de eventos específicos, a terapia breve
é um santo remédio.
Chama-se
breve porque tem uma data estabelecida para começar e terminar.
O contrato entre paciente e terapeuta estabelece o número de sessões
necessárias para a resolução da questão, chegando a uma média
de 20 encontros. “O objetivo é auxiliar a pessoa a se adaptar
àquela nova realidade”, diz a professora do Instituto de Psicologia
da USP Kayoko Yamamoto. A publicitária Valéria (nome fictício)
apostou em alguns encontros psicoterápicos para driblar a depressão
pós-parto. “Achei que eu não seria capaz de criar um bebê com
os cuidados necessários. A terapeuta me fez ver que a criança
não é um ET e me ajudou a superar meus medos”, afirma.
Como
foi dito lá no início, fazer terapia é lançar-se ao desafio de
resolver um problema urgente ou aventurar-se a descobrir mais
sobre si mesmo. O mergulho nos labirintos do inconsciente, que
revela quem somos, pode fazer toda a diferença para determinar
quem desejamos ser. Terapia não tem garantia ou prazo de validade
porque as pessoas mudam, porque a vida muda. E, posto que é mudança,
nem todo mundo aceita ser igual durante toda uma vida.
*
Artigo
publicado originalmente na Revista Vida Simples.
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